Em DESACORDO ortográfico!

Quem acompanha as minhas publicações nas várias áreas que eu verso, certamente, já notou que ostento orgulhosamente a frase: Em total DESACORDO ortográfico.

As revistas VIMANA que editei, os Manuais e Prontuários para os cursos que ministro, os artigos que possam encontrar nos meus websites (Portugal Místico, Guia Kármico, Tarosofia, etc), Ensaios que publico na área de notas das páginas de Facebook (Guia Kármico, Portugal Místico e Tarosofia) estão sempre escritos em português pré-acordo ortográfico.

Como não podia deixar de ser, o mesmo acontece com os livros que agora publico e lanço ao público no projecto ORDO.

Tudo o que escrevo é parte de mim, sai-me do âmago, é sincero e sentido. Não há lugar para manias políticas mal explicadas ou tendências da moda globalizante que mais afasta do que junta.

Uns podem querer acusar-me de resistente à mudança ou anti-progressista, mas deixo-os viver com a tacanhez dos seus julgamentos.
A barbaridade cultural do AO1990 é um ataque ignorante de ordem linguística, educativa, sociológica e patrimonial. Os pseudo-entendidos argumentam com a eficácia da comunicação pela diminuição das palavras que nos separavam de outros países de expressão lusófona, porém em vez de diminuir o número de palavras que se escreviam diferentemente, o número aumentou significativamente já que (e segundo um estudo linguístico de Maria Regina Rocha) 2691 palavras que se escreviam de forma diferente se mantêm diferentes, 1235 palavras que eram iguais tornaram-se diferentes e, destas, mais de 200 mudaram apenas em Portugal, dando origem a soluções aberrantes como aceção, conceção, confeção, contraceção… uma falsa unidade ortográfica que é uma ‘deceção’! Sabia que no Brasil estas palavras de exemplo se continuam a escrever correctamente: acepção, concepção, confecção, contracepção, decepção, etc.
 

Os argumentos dos agentes destruidores culturais são vazios.

Uma das características da língua portuguesa falada em Portugal é a chamada “elevação das vogais átonas”, ou seja: para nós, a pronúncia das vogais “a” , “e” e “o” em posição tónica não é a mesma que a que têm em posição átona. Compare-se o primeiro “a” de “casa” com o de “casinha”: na primeira palavra o “a” é aberto, e na segunda o “a” é fechado. Compare-se o “e” de “mesa” com o primeiro de “meseta”: em “mesa” pronunciamos “ê”, em “meseta” o “e” é mudo. Mesmo que esse “e” desapareça da fala e digamos “mzeta”, continuamos a perceber que se trata de “meseta”. Dizemos “tolo” com “ô” mas em “tolice”, o “o” é fechado.
Esta regra é de aprendizagem automática, desde a primeira infância. Existem excepções, por motivos etimológicos e de paradigma morfológico: caveira, dilação, especar, especular, padeira, relator, retrovisão e algumas mais. Algumas dessas palavras até costumavam, até certa altura, levar um acento grave para indicar que a vogal era aberta: pàdeira e rètaguarda por exemplo. Hoje ele só subsiste como indicador da junção do artigo “a” com a preposição “a” e com os demonstrativos aquele, aquela, aquilo (“Dei um bolo à Maria”, “Àquele nunca falo”). Em 1971 no Brasil e em 1973 em Portugal foi eliminado dos advérbios de modo, e assim “sòmente” e “fàcilmente” passaram a escrever-se “somente”, “facilmente”. Considerou-se inútil porque “os falantes da língua sabiam como se pronunciavam as palavras”. Foi talvez essa a primeira “facada” que os legisladores da língua deram na transparência que a escrita devia ter para quem o português não era a língua materna – como era o caso da maior parte dos nativos das colónias de então. Noutros casos subsistia porém o recurso a letras etimológicas, com a função de indicar que as vogais que as precediam eram abertas. É o caso de “nocturno”,“espectador”, “tractor”. Sem esse auxílio, a regra de fechamento da vogal que não tem acento tónico tende a aplicar-se. É por isso que o AO 90 induz a que se leia “nuturno” ou, quando muito, “nôtúrno”; “espetador” como um derivado de “espeto” e “trator” com “a” fechado, vocábulo que não existe. Quer dizer, o AO aumentou desmesuradamente o número das excepções a uma regra de pronúncia que permitia uma leitura intuitiva.
A língua portuguesa é, como todas as línguas naturais, um produto da História. A nossa deriva maioritariamente do latim, tem muitas raízes gregas, muitas achegas vocabulares árabes, tem remodelações renascentistas, tem neologismos oriundos das nações até onde viajou e dos variadíssimos povos, objectos e ideias que aqui foram chegando através dos séculos. A escrita reflecte essa riqueza!
 

Há um princípio básico de qualquer ortografia: a coerência morfológica.

O AO 90, seguindo estritamente a produção fonética, exige que se escreva “os egípcios são os nativos do Egito”. Conserva-se, e muito bem, o “p” do “egípcio” porque se pronuncia, mas em “Egito” perde-se a ligação gráfica entre o nome do país e o dos seus habitantes.

Pergunto-me: que tipo de coerência existe nos cérebros políticos que assassinam o idioma nacional?

Como ensinar a uma criança que “soturno” se lê com “o” fechado, pronunciado “u” na maior parte do país, e a palavra “noturno” se lê com “o” aberto”? A resposta é fácil: não se fala no assunto e fica o caso arrumado.
Diz-se que o AO 90 foi feito, essencialmente, para aumentar as vendas de livros portugueses no Brasil. Para isso pretendia unificar a escrita. Não unificou. Temos, por exemplo, acentos agudos onde os brasileiros têm acentos circunflexos (fenómeno /fenômeno, o que corresponde a uma efectiva diferença de pronúncia); e eliminamos o “c” e o “p” que são pronunciados em palavras brasileiras e não o são nas correspondentes portuguesas. Por exemplo, no Brasil: respectivo, perspectiva, recepção; em Portugal, segundo o AO: respetivo, perspetiva, receção, embora os “e” destas palavras não se pronunciem como os de “repetido” e “recessão”.
Ao renunciar de modo cego às marcas históricas, este “acordo” insere-se num movimento global de apagamento da memória e de negação da História. É inelutável? Será irreversível? Há quem diga que é demasiado tarde para recuar. Mas talvez ainda se possa fazer qualquer coisa.
 

Eu escolho escrever segundo a minha tradição linguística, cultural e patrimonial!

Eu escolho… e eu escolho escrever em Português!

 

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